A sobrevivente do nazismo que se tornou campeã mundial de natação aos 90 anos

Nunca é tarde para começar. Aos 69 anos nadadora conquistou vários títulos e quebrou recordes mundiais.

A nadadora começou a competir aos 69 anos

Em mais uma manhã de muito calor no Rio de Janeiro, Nora Ronai veste seu maiô, prepara seu café e pega a bolsa para sair. Da porta de casa, ela caminha por 20 minutos em pleno sol até o Clube de Regatas Guanabara, deixa os pertences no armário e vai direto para a piscina. Ali, vai nadar seus 1,6 mil metros diários até sair da água revigorada. Uma rotina comum a qualquer atleta – mas bem rara quando se trata de uma pessoa de 93 anos.

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Nora encara a velhice como uma realidade, mas em meio a uma vida repleta de desafios, ela a leva como apenas mais um – e não como impeditivo para deixar de fazer o que gosta. Nascida judia na Itália de Mussolini, a menina foi banida da escola, virou fugitiva de guerra, viu o pai ser sequestrado pelos nazistas e viveu uma coleção de traumas – mas hoje prefere colecionar medalhas. Na piscina, ela diz que fica em paz.

“Vamos colocar isso em termos de natação. É como se na vida eu estivesse nadando, nadando, nadando, enfrentando ondas muito altas. Estou sendo acuada para cá, tendo complicações para lá. Mas quando entro na piscina, é como se eu tivesse chegado numa praia. Ensolarada, bonita”, conta em entrevista à BBC.

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Nora Ronai pulava o almoço para poder nadar

“Na piscina, eu estou descansando moralmente. Claro que fisicamente não, mas moralmente sim. A piscina me salva de muitas situações opressoras. Ninguém nasce com garantia de eterna felicidade, isso não existe. Então tem situações que são enlouquecedoras. Se a gente sabe nadar, é só nadar 200, 300 metros, que aí já não sente mais nada. Não fica triste, não precisa chorar. É como se tivesse lavado o cérebro por dentro.”

Filha de atletas na Itália – o pai era remador e esgrimista, e a mãe jogava tênis -, Nora teve contato com o esporte desde cedo. No país europeu, suas modalidades preferidas eram o esqui e a esgrima, mas quando veio para o Brasil, na juventude, passou a se dedicar aos saltos ornamentais – onde também desenvolveu a prática da natação.

Somente aos 69 anos decidiu competir em nível internacional, para buscar um novo ânimo. Hoje, exibe com orgulho as dezenas de medalhas conquistadas desde então – sete delas de ouro no último Mundial, em 2014, quando já comemorava seu nonagésimo aniversário. Além disso, ela sustenta seis recordes mundiais – cinco conquistados em 2014, um em 2011. E já avista novos pódios para o Mundial de 2019, na Coreia, quando estará com 95 anos.

“Comecei a competir na natação com 69 anos, mas já estava acostumada a competições porque eu fazia saltos ornamentais quando nova. Eu não fico nervosa numa competição, nunca. No último Mundial de Montreal, eu ganhei sete medalhas de ouro. As que eu tenho mais orgulho são a dos 400m medley, 200m borboleta e 100m borboleta.”

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Nora tem seis recordes mundiais e outras dezenas de prêmios

O período em que Nora começou a nadar coincidiu com um dos mais difíceis de sua vida. O marido, o escritor Paulo Ronai, estava bastante doente, com câncer de laringe, havia alguns anos – já não conseguia nem mesmo falar ou andar. Os treinos de natação, então, se tornaram um momento sagrado para que ela conseguisse relaxar e aliviar a dor de ver seu companheiro passar por tudo isso.

“Meu marido estava muito doente quando eu comecei a nadar. A médica que tratava dele virou minha amiga, doutora Regina, que também tinha sido nadadora do América. Eu disse a ela que gostava muito de nadar, que a natação me fazia tão bem. Quando eu me sentia triste, cansada, eu ia nadar”, conta.

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Nora nada desde jovem, mas só começou competir aos 69 anos

“Então ela disse para começarmos a nadar juntas por uma hora para podermos voltar mais decansadas. E enquanto isso tinha uma outra pessoa que cuidava do meu marido. Aí em um treino eu soube das competições Master e um técnico do Clube de Regatas Icaraí que me viu nadando me convidou para participar. Foi aí que começou.”

Questionada sobre já ter sofrido com o sexismo no esporte, Nora lembra as situações em que teve de se vestir de “menino” para poder usar um trampolim nas montanhas, porque ali “não era permitido damas”. E quando, nos saltos ornamentais, não podia fazer um ou outro salto porque “não eram permitidos para mulheres”. Mas acredita que as coisas estão mudando. “Existia muito, mas acho que já está melhorando.”

O que é o #100Mulheres?

A série #100Mulheres, da BBC (100 Women), indica 100 mulheres influentes e inspiradoras por todo o mundo anualmente. Nós criamos documentários, reportagens especiais e entrevistas sobre suas vidas, abrindo mais espaço para histórias com mulheres como personagens centrais.

Neste ano, a BBC está desafiando mulheres ao redor do mundo a proporem soluções para quatro problemas globais relacionados ao sexismo.

No Brasil, o tema trabalhado será “sexismo no esporte”, focado principalmente no futebol. A partir desta segunda-feira, o #TeamPlay sediado no Rio terá uma semana para inventar, desenvolver e entregar um protótipo – uma solução em tecnologia, um design inovador ou uma campanha – para apoiar as mulheres nos esportes e combater as atitudes sexistas que podem impedir o seu avanço.

Passado

A riqueza de detalhes com que Nora conta as histórias do passado revelam sua lucidez. Fala da década de 1920, quando viveu sua infância, com a clareza de quem está descrevendo o que fez ontem. Não fosse pela aparência física que não deixa enganar, seria impossível adivinhar que já está a caminho do centenário.

As histórias do nazismo e da Segunda Guerra Mundial, que forçaram sua família a emigrar para o Brasil, também são contadas com naturalidade por ela, que parece ter aprendido desde aqueles tempos a resiliência que precisaria ter para a vida.

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Nora também faz salto ornamental

“Prenderam meu pai, levaram para campo de concentração. Nós tivemos sorte que um dos ministros do fascismo tinha sido colega de turma do meu pai durante 8 anos no ginásio. Minha mãe foi falar com ele, levou um tempo até conseguir liberar meu pai, mas deu certo. Depois, os colegas dele no campo de concentração foram queimados na fábrica.”

A filha Laura Conai conta que ainda se impressiona com a leveza com que a mãe encara uma história tão sofrida. “Ela tinha todos os motivos para viver se vitimizando, mas nunca fez isso. Viveu uma guerra, perdeu metade da família, perdeu tudo, mas nunca reclamou de nada. Ela parece que consegue fechar essas portas do passado e deixá-las ali. As dificuldades ficaram para trás, ela optou por seguir em frente”, disse.

Essa é uma das lições que Nora diz que o esporte lhe deu: a nunca desistir. Na infância em Fiume, na Itália (que hoje é Rijeka, na Croácia), ela passou dois anos sem poder frequentar a escola por ser judia e, ainda assim, seguiu estudando com professores particulares em casa.

Quando chegou ao Brasil aos 17 anos, não conseguiu validar seu diploma do segundo grau e cursou de novo o terceiro ano do ensino médio. Foi para a Faculdade de Arquitetura e ali começou a construir uma carreira muito bem-sucedida em um período em que mulheres mal frequentavam a universidade no Brasil.

“Ela se formou, fez doutorado, fez trabalhos renomados na arquitetura, foi dar aula na universidade e, mesmo assim, não deixou de ser uma mãe presente para nós, estava sempre perto”, afirma Laura.

Almoço ‘na piscina’

Mesmo diante de tantas responsabilidades, Nora nunca abandonou o esporte. Cumprindo todos os papéis que lhe eram requisitados – mãe de duas meninas, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e esposa de Paulo Ronai -, a imigrante italiana abdicava do almoço para poder dar suas braçadas na piscina.

“Eu sou da época em que os homens achavam que eles tinham que ganhar o dinheiro para sustentar a família. O resto era com as mulheres. Lugar de mulher é perto de tanque, no fogão, etc. Eu nunca fui disso, mas tive que ser, porque meu marido tinha sido educado para essa vida, ele não sabia cozinhar um ovo, não sabia preparar um chá”, conta.

“Eu tinha que ser dona de casa, tinha que cuidar das filhas, tinha que trabalhar, era arquiteta-chefe de uma grande construtora, era professora de universidade, enfim. Mas aí na hora do almoço, lá mesmo na UFRJ, eu corria para a escola de educação física que tinha uma piscina e, em vez de almoçar, eu nadava. Eu não almoçava para poder nadar.”

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As filhas de Nora não seguiram seu caminho no esporte

“Você não pode imaginar a vida que eu tive. Eu não almoçava para poder nadar. Eu conto isso para mostrar que se você realmente quer alguma coisa, você encontra o tempo.”

As filhas, Cora e Laura, cresceram vendo a mãe se multiplicar em mil e admitem terem tido uma ilusão da vida adulta. “A gente via o que ela fazia e achava que toda família era assim, que toda mãe era assim. Que isso era o normal. Mas logo a gente cresceu e viu que ela não é normal. Ela é a mulher maravilha!”, diz Laura.

Nenhuma das duas seguiu o exemplo da mãe nas piscinas – ela até tentou incentivá-las nos saltos ornamentais, mas tão logo as meninas cresceram, largaram o esporte e nunca mais voltaram. No entanto, tanto Cora quanto Laura reconhecem que a rotina de Nora nas piscinas ajuda a mantê-la ativa e feliz aos 93 anos.

“Ela nunca foi aquelas velhinhas que estão sempre reclamando. Ela é muito ativa, tem uma energia que não acaba. Vive uma vida muito mais leve do que eu”, finaliza Laura.

Fonte: BBC